Prática da presença de Deus
Organizado e comentado por: Edmilson José Silva Filho
BREVE BIOGRAFIA
O irmão Lourenço, Nicolás Herman, nascido por volta do ano de 1610, levava a vida normal de um jovem de classe média. Contudo, aos 18 anos uma experiência mudaria a sua vida, a contemplação da nudez de uma árvore no inverno o levou a uma intensa experiência de Deus. Essa experiência o levou a uma vida dedicada à oração, porém nas próximas duas décadas Nicolás Herman esteve a serviço do exército, participando da Guerra dos Trinta Anos.
Antes de completar 40 anos, porém, foi tomado por um grande arrependimento, causado pela soma de diversos fatores, dentre eles uma grande confusão espiritual e um acidente na guerra que o deixou aleijado. Após viver em um bosque, passou por uma espécie de transição, até pedir o ingresso em um mosteiro carmelita visando fazer penitência pelos pecados cometidos em sua vida. Em meio às fadigas e os trabalhos do cotidiano, descobriu uma forma de viver de forma eficaz o caminho da santidade: o exercício da presença de Deus.
BREVE EXPOSIÇÃO PESSOAL DO LIVRO
Com poucas páginas este livro pode deixar muitas lições. De fato, o irmão Lourenço possui uma incrível retórica, o que nos auxilia didaticamente na compreensão de suas mensagens. A leveza de suas palavras me tocou bastante, e o seu amor por Deus é fantástico. Todos os obstáculos que aparecem na vida do irmão Lourenço da Ressureição são superados através do amor a Deus, especialmente a partir de sua prática espiritual da presença de Deus. A presença de Deus é estar com e em Deus o tempo todo, durante todo o dia e durante todas as atividades do cotidiano, é retirar uma palha do chão por amor a Deus, e tudo fazer por amor a Ele, santificando tudo a todo momento.
Quando deixava o seu pensamento escapar de Deus, o irmão Lourenço não fica aflito, logo voltava o seu pensamento para o Amor; aprendemos com ele a inquietude é inimiga e que podemos nos dirigir melhor até Deus quando, após uma queda, nos levantamos com tranquilidade e humildade, reconhecendo nossa fraqueza e indo aos braços do Misericordioso Pai, que é a Bondade em si mesmo. Durante muitos anos sofreu, os pensamentos de seus pecados passados voltavam para o atormentar, mas com a graça de Deus foi curado, esta cura se deu porque nestes momentos ele não fugia do Pai mas antes corria em busca do Seu socorro.
Uma de suas grandes lições é a aceitação do sofrimento, situação intrínseca à vida do homem caído; a mensagem fica bem clara: melhor sofrer com Deus que gozar dos prazeres da vida sem Ele. O hábito é para ele muitíssimo importante no crescimento espiritual, e o início é difícil, porém a graça de Deus sempre se dá o necessário àquele que pede com humildade (Mt 7, 7-12).
Algo frisado inúmeras vezes ao longo do livro é a necessidade se esvaziar o coração de tudo para que assim Deus o possa preencher em sua totalidade, nada para o mundo, tudo para Deus.
A prática da presença de Deus leva a uma fé leve, porque o hábito virtuoso de Sua presença nos evita do pecado sem que precisemos ficar refletindo cada ação, porque cheios do Pai as nossas atitudes se conformam à Sua Vontade.
O Irmão Lourenço é caracterizado pela sua humildade e simplicidade, além de claro seu amor por Deus. Durante vários momentos ele se considera o pior dos homens, afinal, somos todos o pior dos homens, e se estamos na graça de Deus, louvemos a Ele por Sua Infinita e Divina Misericórdia. Outra característica interessante é o seu processo de ‘’olhar interior’’, ou seja, o olhar introspectivo, que busca encontrar dentro de si as respostas para as angústias humanas, se valendo da revelação da Fé para balizar essa caminhada em si. Também se valeu desta atitude da introspecção para crescer no conhecimento e amor a Deus:
‘’No início de seu noviciado, passava as horas determinadas para a oração privada pensando em Deus, para convencer sua mente e imprimir profundamente em seu coração a existência divina, mediante sentimentos devotos e submissão à luz da fé, mais que mediante estudadas argumentações e elaborada meditação. Mediante este simples e seguro método, exercitou-se no conhecimento e no amor a Deus, resolvendo usar seus maiores esforços para viver no contínuo sentido de sua Presença, e, o quanto possível, de não esquecê-lo nunca mais.’’
Em linhas gerais, essas são algumas coisas que achei interessante falar sobre o livro, infelizmente a minha porca capacidade de escrita não permite passar nem um pouco do tesouro que é esse livro, a todos convido à leitura.
EXCERTOS ESCOLHIDOS
ANSIEDADE
1 ‘’Experimentava o socorro imediato da Graça Divina em toda ocasião, e por essa mesma razão, quando tinha uma tarefa a cumprir, não pensava nela de antemão, mas logo que chegasse o momento de fazê-lo; e encontrava em Deus, como em um espelho límpido, tudo o que era adequado fazer. Ultimamente vinha atuando desta maneira, sem antecipar preocupações.’’
2 ‘’Esperava no futuro próximo uma grande dor corporal e mental, e o pior que podia acontecer-lhe era perder aquele sentido de Deus que havia desfrutado por tanto tempo, mas que a bondade de Deus lhe assegurava que não lhe abandonaria por completo, e que lhe daria força para suportar qualquer mal que Deus permitisse que lhe acontecesse. Portanto, não tinha nenhum temor e não havia tido ocasião de consultar com ninguém sobre o seu estado.’’
3 ‘’É necessário, entretanto, pôr toda a nossa confiança em Deus, deixando de lado todas as outras preocupações [...]’’
Comentário: A sua profunda resignação também o levou ao estado oposto à ansiedade, isto é, a calma e a tranquilidade para a resolução de seus deveres e tarefas. Não poderia ser diferente, a Paz agia desta forma nele, que confiava todo o seu futuro a Deus, inclusive as suas atividades cotidianas; antes de toda atividade pedia a Deus para que conseguisse cumpri-la, se conseguia louvava a Deus pela graça concedida, se não conseguia pedia perdão e ‘’sem desanimar, novamente colocava sua mente em ordem e continuava com seu exercício da presença de Deus, como se nunca tivesse se tivesse desviado dela.’’
BONDADE E MISERICÓRDIA
4 ‘’[...] Tudo isso, o sei muito bem, deve atribuir-se somente à misericórdia e bondade de Deus, porque não podemos fazer nada sem Ele, ou ainda: menos que nada. Porém, quando somos fiéis em manter-nos em sua santa Presença, e O temos sempre diante de nós, isso não só nos previne de ofendê-lo, deixando de fazer qualquer coisa que lhe desagrade ao menos não deliberadamente, como também gera em nós uma santa liberdade, e, se posso dizê-lo, uma tal familiaridade com Deus que, quando lhe pedimos algo, Ele nos concede as graças de que necessitamos.’’
5 ‘’Considero-me o pior dos homens, cheio de chagas e corrupção, e que cometeu toda espécie de crimes contra seu Rei. Tocado por um verdadeiro arrependimento, confesso-lhe todas as minhas maldades, peço-lhe perdão, abandono-me em suas mãos, para que Ele faça comigo o que quiser. Esse Rei, cheio de misericórdia e bondade, longe de castigar-me, abraça-me com amor, põe-me a comer em sua mesa, serve-me com suas próprias mãos, dá-me a chave de seus tesouros, conversa e se deleita comigo incessantemente de milhares e milhares de formas, e trata-me em tudo como seu favorito.’’
CAMINHADA NA VIDA ESPIRITUAL
6 ‘’No início da vida espiritual, devemos ser fiéis no cumprimento de nossos deveres e negar a nós mesmos [...] muitos não avançam na maturidade cristã porque se aferram a penitências e exercícios particulares, enquanto descuida do amor a Deus, que é a finalidade. [...] Não se necessita nem arte, nem ciência para ir a Deus, mas somente um coração resolutamente determinado a não dedicar-se a outra coisa que não a Deus, ou à sua honra, e amar somente a Ele.’’
Comentário: Não se entenda mal, o irmão Lourenço não é contra mortificações, em uma de suas cartas ele dirá que ‘’é apropriado privar algumas vezes, não frequentemente, de diversos pequenos prazeres inocentes e permitidos’’, pois só assim a alma estará inteiramente consagrada a Ele, sem procurar prazeres em outras coisas. Portanto, ele quer falar da penitência sem o Amor, do meio sem a finalidade.
7 ‘’Na vida espiritual, não avançar é retroceder’’
CONFIANÇA
8 ‘’A confiança que pomos em Deus o honra grandemente, e faz descer grandes graças’’
9 ‘’De uma vez por todas, deveríamos pôr de coração toda a nossa confiança em Deus, e render-nos por completo a Ele, seguros de que não nos frustrará.’’
Comentário: A nossa confiança em Deus é muito agradável e muito querida por Ele, isto é algo lógico, Deus é o Sumo Bem, digno de toda a confiança pois é Perfeito, não engana e não mente, é a própria Justiça. Como poderíamos, então, confiar mais em outra coisa que não em Deus? Esta confiança nos leva a uma resignação total, a entrega de si mesmo aos braços do Pai.
À alma totalmente resignada Deus oferece as graças necessárias para que possa suportar todos os sofrimentos que a atingirem. ‘’É impossível não só que Deus se engane, mas também que deixe sofrer uma alma perfeitamente resignada a Ele e resolvida a suportar qualquer coisa por Ele’’, completa.
CONVERSA e RENÚNCIA
10 ‘’Tudo consiste em uma renúncia de coração a todas as coisas que percebemos que não nos conduzem a Deus. Podemos acostumar-nos a conversar continuamente com Ele, com liberdade e simplicidade.’’
11 ‘’Para dirigir-nos a Ele em todo momento, só necessitamos reconhecer que Deus está intimamente presente junto a nós, que podemos pedir sua ajuda para conhecer sua vontade em coisas duvidosas, e para realizar corretamente aquelas que vemos claramente que Ele nos pede. [...] Em nosso colóquio com Deus, também devemos aplicar-nos a louvá-lo, adorá-lo e amá-lo por sua infinita bondade e perfeição.’’
12 ‘’Deus sempre nos dá luz em nossas dúvidas, se não temos outro propósito na vida que agradá-lo. Nossa santificação não depende de mudar de trabalhos, mas de fazer, para a glória de Deus, aquilo que comumente fazemos para nós mesmos.’’
13 ‘’O método mais excelente que havia encontrado para ir a Deus era o de cumprir com as tarefas mais comuns sem o desejo de agradar aos homens, mas (até onde somos capazes) de fazê-las puramente por amor a Deus.’’
Comentário: É disso que se trata a ideia de ‘’colóquio’’, uma conversa. Com quem conversamos? Com o próprio Deus. De coração contrito e humilde, nos voltamos para Ele, dialogamos, falamos de nossas fraquezas e nossas dificuldades, pedimos graças, contamos sobre nós. Ele sabe de tudo, mas se alegra quando nosso coração se prostra para Ele. A renúncia leva a essa conversa tão proveitosa e valorosa, sem dúvidas um caminho para alcançar a leveza da oração para aqueles que sentem um peso neste momento onde o coração está visando o Céu. Quem não sente paz em conversar sobre seus problemas com um ente querido que é compreensivo? Ora, quem mais compreensivo que aquele que é a Misericórdia e a Bondade?
DIFICULDADES (Com conselhos úteis aos escrupulosos)
14 ‘’[...] durante os primeiros dez anos sofri muito: o temor de não estar dedicado a Deus como desejava estar, meus pecados passados sempre presentes na minha mente e os grandes e imerecidos favores que Deus me fazia, eram a natureza e a origem de meus sofrimentos.
15 Durante este tempo, caí frequentemente, mas levantei-me da mesma forma. Parecia-me que todas as criaturas, a razão e o próprio Deus estavam contra mim, e somente a fé estava a meu favor. Às vezes preocupava-me o pensamento de que crer ter recebido tais favores era efeito da minha presunção, que pretendia já estar onde outros chegam com dificuldade. Outras vezes, que era um engano intencional, e que não havia salvação para mim.’’
16 ‘’Não confies escrupulosamente em certas regras, ou particulares formas de devoção; antes, atua com uma grande confiança em Deus, com amor e com humildade.’’
17 ‘’Tu não és o único que tem problemas com os pensamentos inconstantes.’’
18 ‘’Se tua mente se distrai e se afasta d’Ele, não te inquietes muito. A preocupação e a inquietude servem antes para distrair a mente do que recolhê-la. A vontade deve reconduzi-la à tranquilidade. Se perseveras desse modo, Deus terá piedade de ti.
ENFERMIDADES
19 ‘’Não rezo para que fiques livre de tuas dores, mas rezo a Deus fervorosamente para que te dê forças e paciência para suportá-las durante todo o tempo que Ele quiser. [...] Felizes os que sofrem com Ele. Acostuma-te a sofrer dessa maneira, e busca n’Ele a força para suportar tanto e durante tanto tempo quanto Ele julgar necessário para ti. Os homens do mundo não compreendem essas verdades, e não devemos surpreender-nos, pois o sofrem como o que são, e não como cristãos. Consideram a enfermidade como uma dor da natureza, e não como um favor de Deus. E vendo-a somente assim, não encontram nada senão aflição e angústia.’’
20 ‘’Porém, aqueles que consideram que a enfermidade vem da mão de Deus, como efeito de sua misericórdia, e como o meio que Ele emprega para sua salvação, comumente encontram nela grande doçura e consolação.’’
21 ‘’Põe toda a tua confiança n’Ele, e logo verás os efeitos da recuperação, a qual com frequência retardamos porque pomos maior confiança na medicina do que em Deus.’’
22 ‘’Sejam quais forem os remédios que uses, serão eficazes somente na medida em que Ele o permita. Quando as dores provêm de Deus, somente Ele pode curá-las. Com frequência Ele envia enfermidade ao corpo para curar as enfermidades da alma. Consola-te com o Médico Soberano, tanto da alma quanto do corpo.’’
23 ‘’Se estivéssemos acostumados ao exercício da presença de Deus, todas as enfermidades físicas seriam aliviadas. Deus frequentemente permite que soframos um pouco para purificar nossas almas e animar-nos a continuar com Ele. Tem coragem, oferece a Ele tuas dores incessamente, pedindo-lhe fortaleza para suportá-las. Sobretudo, adquire o hábito de frequentemente passar tempo com Deus, e o esquece o mínimo que puderes. Adora-o em tuas enfermidades, oferece-te a Ele de tempos em tempos, e, no auge de teus sofrimentos, pede-lhe humilde e afetuosamente (como um filho a seu Pai) que possas conformar-te à sua santa vontade. Vou esforçar-me por ajudar-te com minhas pobres orações.
HUMILDADE
24 ‘’Quando ingressamos na vida espiritual, devemos considerar e examinar a fundo o que somos. E então deveríamos encontrar-nos indignos de todo respeito, e não merecedores do nome de cristãos, submetidos a toda espécie de misérias e inumeráveis defeitos que nos preocupam e que causam vicissitudes perpétuas em nossa saúde, em nossos humores, em nossas disposições internas e externas. Em resumo, pessoas às quais Deus poderia humilhar mediante muitas dores e trabalhos, tanto interiores quanto exteriores. Depois disso, não deveríamos surpreender-nos a nós e nos contradigam. Devemos, pelo contrário, submeter-nos àquilo e suportá-lo tanto quanto Deus queira, como coisas altamente vantajosas para nós.’’
PEQUENAS OBRAS
25 ‘’Não devemos cansar-nos de fazer pequenas coisas por amor a Deus, porque Ele não leva em conta quão grande é a obra, mas o amor com que a fazemos.’’
PRESSA
26 ‘’Parece-me que está cheia de boa vontade, porém quer ir mais rápido que a graça. Ninguém chega a ser santo em um instante.’’
REPARAÇÃO DOS PECADOS
27 ‘’[...] entregar-me a Deus, como a melhor maneira de fazer reparação por meus pecados e, por amor a Ele, renunciar a tudo.’’
SANTA LIBERDADE
28 ‘’Não digo que devemos impor-nos repressões violentas. Não, devemos servir a Deus com uma santa liberdade, devemos fazer nossos trabalhos fielmente, sem dificuldade nem intranquilidade, fazendo nossa mente devotar-se a Deus suavemente e com tranquilidade, tão frequentemente quanto percebermos que se está desviando d’Ele.’’
SOFRIMENTO
29 ‘’Os sofrimentos serão doces e agradáveis para nós enquanto estivermos com Ele, e os maiores prazeres serão, sem Ele, um cruel castigo para nós. Seja abençoado por todos. Amém.’’
VIRTUDES
30 ‘’Todas as coisas são possíveis para o que crê, são menos difíceis para o que espera, são mais fáceis para o que ama, e ainda mais fáceis para o que persevera na prática dessas três virtudes (Fé, Esperança e Caridade).’’
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